quarta-feira, 4 de maio de 2016

Quem somos, de onde vimos, para onde vamos, porque é que não há mais pessoas a a andar de bicicleta?

Serra da Lousã
(1 de Maio de 2016)

O encontro ocorreu logo depois de ter estado a fotografar as paredes coberta de água, coloridas, brilhantes por onde corria um fiozinho de água; o que restava de uma queda mais ou menos exuberante de algumas semanas atrás. Vem o Sol, o tempo aquece e irrompem as cores. Ao contrário, os riachos minguam.

Mas, estava ali a olhar para os brilhos e as cores da parede onde agora irrompiam pequenas plantas quando vejo um tipo a aproximar-se de bicicleta, uma ar distraído, a olhar à volta, só lhe faltava assobiar, com aquela atitude de cordialidade contida.


Mas os roxos? De onde é que vêm os roxos? Era isto que mais me intrigava


Passou. Eu fiquei mais um pouco. Depois, fui atrás dele pela serra acima. Que diabo o tipo pedalava bem. Vi que levava uns rabiscos a servir de mapa. Meti-me com ele, ofereci-me para lhe dar sugestões, dicas, respostas. O plano dele era simples mas difícil de concretizar. Subir ao topo da serra e depois descer pelo outro lado.
Entretanto chegou a mulher. Vinha numa e-bike (bicicleta auxiliada por um motor eléctrico). É que assim consigo acompanhá-lo, disse-me, apontando para o marido com a cabeça e expressão de quem quer dizer que ele é um tolo das bikes.
Eram Holandeses. Lá lhes dei uma sugestões, falámos de várias coisas. Ela dizia-me que gostavam muito das variantes do verde e eu percebia bem o que ela dizia. Ele, o marido, ia sorrindo. Às tantas, ele sai-se com esta:
-        Isto é tudo tão bonito. Porque é que não há mais pessoas a andar de bicicleta?

à    Às vezes fazem-se estas perguntas sem querer saber a resposta (perguntas de retórica) mas quando ele ficou a olhar para mim de olhos abertos percebi que era genuíno, que o intrigava a pergunta, que queria que eu dissesse alguma coisa. Disse-lhe que, ainda assim,  por vezes há mais pessoas a pedalar por ali. Mas que quando se trabalha (os que trabalham) e se tem um ordenado miserável, como é o caso de mais de 30% das famílias (e jovens) portugueses, pedalar pelos campos e serras apreciando a beleza pode ser uma ideia remota. Tal como ir ao cinema, ou a uma exposição, ou a um concerto, ou outra coisa. Mas que também achava que há coisas que têm que ser ensinadas e que, ao contrário de emoções como o medo, por default não temos inscrito nas redes neuronais outras que resultam de estímulos diversos e associações complexas (a beleza que ele percebia incluía não só o que via mas também os aromas, e a luz e os sons de aves e água a correr, e mais mil e uma coisas).

     Despedi-me e fui andando mas, km à frente, quando parei numa fonte improvisada (uma telha num riacho) que está ali há anos



     olhei para trás e via-os perto. Pedalavam que se fartavam. Eu todo bem equipado, calções como deve ser, sapatos de encaixe, uma bike jeitosa e tal, e ele com uns sapatos de pano finos que nem conseguia colocar o pé no pedal, um alforge, uma pasteleira.

Ao chegar ao planalto tirei mais umas fotografias: umas árvores num pequeno bosque. É que estava tão bonito!





Na descida tirei outras, desta vez a um souto que começa a folhear, fazendo contrastes de sombra em machas no chão das folhas mortas do ano passado.


E daqui apanhei depois o caminho (este é dos caminhos para algum lado) que me levou lá abaixo ao vale. Gosto desta descida porque  o vale começa a vislumbrar-se (como que a nascer no horizonte), percebendo-se  lá em baixo, e depois se vai abrindo, imenso, à medida que nos aproximamos.






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