terça-feira, 14 de setembro de 2021

The rest of the best


Era Agosto de 2019 e pedalava nas serranias do Açor. Clique, uma, clique, duas, mil fotografias.

Por vezes, após umas belas pedaladas, e enquanto a pele não desarrepia e a respiração não volta ao normal, inicio o carregamento de fotografias aqui para o blog como ponto de partida para mais uma postagem velocipédica, if you know what I mean. Memória fresca, cabeça quente e ainda com a vertigem do deslizar sobre rodas é quando a coisa corre bem; a prosa sai fluída.
Mas ... comme d'habitude alguma coisa se mete pelo meio e as fotografias ficam aqui penduradas e rotuladas de "draft". Depois acabo isto - penso. E fica em "draft" indefinidamente pois o tempo passa e a vida é composta de mudança tomando sempre novas qualidades e nunca mais volto ao post inacabado. Em suma, tenho aqui no blog "drafts" semeados pelo meio dos posts como girassóis num campo de milho.

Por exemplo, dei com este post inacabado (de Agosto de 2019) que consiste numa única fotografia. Nem uma palavra a acompanhar mas provavelmente iria escrever sobre o vento que percorre as cumeadas sobre o vale do rio Ceira e os penedos de Fajão na serra do Açor (ao centro) ao por do Sol ou sobre o horizonte azul que a vista alcança para lá do amarelo Van Gogh e dos laranjas que, sob a luz do Sol rasante, bordejam os montes mais próximos. Ou sobre os mosquitos que nas tardes quentes, mal pára ara olhar o horizonte, insistem em pousar em todos os orifícios que encontram no meu organismo (nos expostos obviamente - nariz, ouvidos, boca). Ou sobre a águia que por ali voa à frente dos olhos (e não acima).

Este é o contexto. A decisão foi começar a postar os posts inacabados. Portanto, cá vai a fotografia.


Para compor o post, embora desvirtuando-o, adiciono o Peter Gabriel e "the book of love"



domingo, 8 de agosto de 2021

Na tempestade, sob o céu de trovoada pelas cumeadas do Açor

 Junho 2021

Aaaahhh ... o céu de trovoada do Açor. Ver claramente vista a chuva que, ao longe, cai das nuvens ... e o cheiro da tempestade, a luz invulgar, o som grave dos trovões que se mete até aos ossos ...



A chuva que cai sobre o Picoto da Cebola e que, provavelmente, um dia fará parte da barragem de Sta. Luzia ...


Mas ... antes, entra (outra vez) o Zappa:

(Watermelon In Easter Hay do Acto III do Joe´s Garage)

Sente-se a força da tempestade no esterno e nas costelas, uma pressão nos pulmões que transforma o acto involuntário da respiração numa acção consciente. Olha-se o céu e respira-se fundo com imenso prazer. Nada é etéreo, é tudo físico e denso. Ao contrário do que diriam os irredutíveis Gauleses que resistem sempre ao invasor romano (apesar das baladas do bardo Assurancetourix lhes dar cabo do juízo), o céu não nos cai em cima da cabeça mas as paisagens que se desenham no céu pesam sobre todo o corpo.

A passagem. Ali, aos 700 m, na curva da barragem de Sta. Luzia desenhava-se a passagem entre um dia normal com céu nublado e uns trovões ao longe and the real thing, o pedalar serra acima para o seio da tempestade. E foi essa a história; serra acima para o céu da tempestade. O fascínio do abismo impôs-se.


Para Este as cortinas de água sobre o Cebola


Ao centro, no planalto da serra da Estrela, a coisa parecia estar ainda naquele engano de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito.


Uma, duas, mil pedaladas serra cima. A mancha brilhante no fundo do vale do rio Ceira (daqui visto é apenas um fiozinho de água), reflectindo a luz do céu revolto, a barragem do Alto Ceira



Curiosamente, à medida que pedalava e me movia entre encostas, a luz variava entre os tons estranhos e quentes e o azul e cinzento frios.





Tantas vezes por ali perto passara e só agora dava conta dos menires à beira do caminho. Fiz ali o picnic (água da fonte e pão com marmelada) com vistas para o Cebola, olhando a chuva que, lá ao longe, sobre o pico do Cebola, caía das nuvens. É interessante olhar a chuva ao longe a cair das nuvens (já o disse mil vezes).


Na tempestade o "lá ao longe" torna-se no "já cá chegou e cai-nos em cima" no minuto seguinte. O picnic não acabou sem que a ventania trouxesse as gotas grossas que caíam sobre a marmelada.



O "lá ao longe" torna-se também no "ó caraças, isto está feio" quando, nas calmas sentados no chão a trincar o pão, olhamos para trás. Para trás mais ou menos, para o lado por entre as ervas.



É a terceira lei do BTT: "a tempestade troca-te as voltas pá, não olhes só para a frente, olha também para trás, e com frequência porque a dinâmica da tempestade é de natureza caótica".
Levantei-me para perscrutar o horizonte e ainda me passou pela cabeça a ideia idiota de tentar perceber de que lado estava o vento.



Tinha descido um pouco e to get back home safely tinha que voltar a subir até aos 1100m para novamente descer. E a subida junto às eólicas que rodopiavam doidas (acho que aquilo deve ter um travão para que parem acima de uma determinada velocidade do vento) tinha, olhando o céu, um cenário extraordinário.


O regresso foi mais ou menos longo mas para o contar de modo breve: foram pedaladas ribombantes e relampejantes. 

domingo, 1 de agosto de 2021

O vento que sopra do Norte empurra o nevoeiro do vale do Ceira pelas cumeadas do Açor

 Julho 2021

Instruções:

1. OuvEr o videozinho com o som no máximo;

2. Tornar a ouvEr o videozinho mas, desta vez, por primeiro o Zappa a tocar Watermelon in Easter Hay (ali em baixo);

3. Repetir a gosto.

PS. Caso se sinta nas nuvens a percorrer as cumeadas do Açor está tudo bem. No problem, nada de preocupante.



(o vale do rio Ceira situa-se à esquerda, a Norte, 400 m mais abaixo, um dos vales que rasga o Açor) 





quarta-feira, 14 de julho de 2021

Coração na serra, olhos no mar

 Maio 2021

Pedalava pelo caminho um pouco abaixo da cumeada. Cem metros acima, a cumeada era varrida pelo vento. Por ali, aos cerca dos 800m, ia mais abrigado, havia árvores, vegetação (tinha-me cruzado com uma javali e dois filhotes não há muito), ribeiros ... e o olhar alcançava lonjuras. Já não ia para aqueles lados, para o lado Oeste da serra, há algum tempo. Se calhar porque é o lado onde a serra se acaba e o vale começa. Para o outro lado, para Este, é o oposto, a cordilheira eleva-se pelo Açor fora até aos 1400m de altitude e daí até ao maciço central da Estrela aos 2000 m. E isto da bike de montanha, a subidas são um atractor.  É o olhar para cima que impele. Se distraído, vou seguramente para cima.

Durante a subida, em algumas partes, mas acima dos 700m, os montes estavam cobertos de uma flor surpreendente que se elevava sobre a urze rasteira. Curioso aquilo. Ao longe pareciam flocos de neve; ao perto isto:




Às tantas, um caminho de cabras serra acima, pela direita, entroncando no que eu levava. Olhei para cima e foi então que vi a "coisa" destacada contra o céu. Mas que #€"&%$%# é aquilo? Teria que subir a cascalheira. Ir por ali acima, uns cem metros com uma inclinação acima dos 20%. Já depois de ter chegado, visto pelo lado de baixo é assim:


E. pelo lado de cima, assim:


Ali, um local ermo, sobranceiro ao vale imenso que do lado direito se estende até à serra do Caramulo e do lado esquerdo até ao mar. Em dias limpos vê-se claramente visto o mar e a Figueira-da-foz.


Coração na serra, olhos no mar


A tábua gravada a cinzel (ou à navalha), mostrando um mapa com locais icónicos da região que dali se avista: o mosteiro de Semide (berço da chanfana!), o Sr. da Serra, a Torre da Universidade de Coimbra, o vale do Mondego e a serra da Boa Viagem ... Em cima, à esquerda, a identificação da instalação: Vila Nova, o miradouro do concelho. Vila Nova é uma povoação ali perto. E ali, naquele local belo, remoto, de difícil acesso Vila Nova decidiu instalar o mapa da região gravado numa tábua de madeira e deixar bem vincado na memória de quem, por mero acaso, por ali caminhar, correr ou andar de bike, como se a memória fosse também esculpida à navalha que ali, naquele sítio: coração na serra, olhos no mar.

Que bela ideia. 

Olhos no mar:
















domingo, 27 de junho de 2021

Neblinas Júnicas

 Junho 2021

Dobrado o Solstício, a tardes vinham já quentes e as manhã mornas. À serra, imensamente verde, parecem ter voltado as borboletas e as abelhas, os pássaros e as lagartixas como já não via há uns anos.

De uma dia para o outro, de Sábado para Domingo, a temperatura caiu dos 20 e tal para os 11 graus C e, sem grande surpresa, das cumeadas até à floresta a meia encosta, a serra cobriu-se de neblina. Com o dia a temperatura aumentaria e, pela tarde, as brumas levantariam. Mas, pela manhã, a serra estava envolta em neblina. Neblina densa. Neblinas de Verão. A neblina que enche a paisagem de silêncio e mistério. Sobretudo estando lá, quero dizer, no meio da neblina, no meio da serra.

Na EN236 a visibilidade aos mil metros era cerca de meia dúzia de palmos à frente da roda da frente da bike.  A caruma fininha dos abetos marcava a berma num traço paralelo ao verde dos fetos, com pinceladas roxas aqui e ali das dedaleiras.




Ao fundo, na curva da estrada, do lado de lá da luz, da luz neblínica que não deixa ver, caso estivesse Sol aberto abrir-se-ia o vale sobre o Candal, um desnível de 700 m, parte da Beira-litoral e, em frente, o Trevim mais acima, o cume da serra. Na neblina, a curva da estrada leva a outra curva e pedala-se por ali a apreciar a paisagem em dois planos; na memória vê-se a paisagem invisível para os olhos e os olhos vêem vultos, sombras e luz na neblina translúcida à volta.
O vento forte sacudia as árvores que molhadas faziam chover. Chuva vinda das árvores.



Na meia-encosta, na floresta, a temperatura mais amena levantava a neblina a meio da manhã.









Era a hora de seres improváveis por ali deambularem sem serem avistados. Vultos brancos de olhos azuis, outros com hastes magníficas ... e outros sobre duas rodas.



Um ruído, um sobressalto, um vulto que passa rápido ... olha-se e, um segundo depois, ... tudo calmo.


E entra o Milton (dito assim, com a confiança de quem um dia com ele teve um bate-papo ... é isso aí cara).




 

quinta-feira, 17 de junho de 2021

De volta ao Adamastor do Açor

 Maio 2021

Tendo iniciado mais uma volta ao Sol - e já lá vão umas dúzias - o ciclista extraordinário foi dobrar o cabo das tormentas do Açor. Previa-se céu limpo e vento fraco. O dia amanheceu com céu azul e um ventinho quente. Depois de uma caneca de café e umas fatias de pão com queijo e doce de abóbora, o ciclista fez-se às ondas quer dizer, ao caminho. Os cantis seriam cheios na fonte junto à barragem. O espelho de água que se estende até ao infinito (mais ou menos, pelo menos até ao planalto da Estrela) é uma surpresa antecipada quando se chega pelo lado dos penedos da barragem, pelo lado da aldeia do Vale Grande.



Logo na curva dos penedos, a barragem! Ao centro na linha do horizonte o maciço central da Estrela e, à esquerda, formando um cone perfeito, o Adamastor do Açor; o picoto da Cebola (local de onde se avista cerca de um terço do território continental).


Enchidos os cantis, iniciou-se a subida. Daí a 700 m mais próximo do Sol e a 1400 do nível do mar estaria lá; no pico mais alto do Açor que visto daqui parece inatingível. 
A temperatura chegou aos 30, depois 31 graus C. Porra, de onde vem este calor - pensou o ciclista extraordinário em voz alta. Felizmente o ciclista extraordinário não sofre de alergias a pólen pois o odor intenso das flores amarelas de malmequeres, giestas e carqueja fluíam nariz adentro, provocando um fogo de artifício nos neurónios olfactivos.
Pedaladas acima e o ciclista metia-se Açor adentro, percorrendo a encosta Sul do vale do rio Ceira, o vale que rasga o Açor. Ao contrário de outras serranias, o Açor é cortado por múltiplos vales, ora paralelos ora perpendiculares entre si.
Mil pedaladas depois e lá estava Fajão, ao centro, e, à esquerda, as serranias que se estendem para Este até à Serra da Lousã. À direita, espreitando na linha do horizonte, por detrás da encosta Norte da vale do rio Ceira, a serra do Caramulo (entre estas duas serras estende-se grande parte da Beira Litoral e da Beira Alta).


Para o outro lado, para o lado para onde me levavam os ventos e a vontade, o Adamastor, o cone quase-perfeito do picoto da Cebola. À esquerda, do outro lado do vale, os outros dois gigantes do Açor, o São pedro do Açor e o Gondufo. Unindo os três gigantes, por detrás, a azul mais claro na linha do horizonte e coroado com nuvens, o maciço central da serra da Estrela. 


Subir ao Cebola tem que ser uma tirada sem paragens. Depois da breve paragem, do olhar para o Cebola, de tornar a olhar o cone quase perfeito, de se libertar de excesso de peso (no caso peso no estado líquido), o ciclista extraordinário arrancou. Não se pode conceder 1 minuto sequer ao desânimo. Pára-se e respira-se quando se chega. E assim foi. Nem sequer se afastam as nuvens de mosquitos que andam por ali na sombra das pedras e que, à medida que se pedala Adamastor acima, nos detectam (pudera, o suor a correr pela pele deve impregnar o ambiente com aroma irresistível) e se instalam à volta da nossa cabeça como uma nuvem. E esta é uma das leis universais do BTT: se, num dia quente, pedalas a uma velocidade menor que 6 km/h, isto é, a uma velocidade inferior aquela a que as moscas voam, estás quilhado pá.




No Cebola a paisagem vê-se invertida; o céu domina, as árvores, o rio, as pedras nos vales são apenas manchas de cor, as aves de rapina que por ali planam vêem-se pelo dorso, não pelo ventre, os aerogeradores estão lá em baixo e não lá em cima. O maciço central da Estrela a Este é o único pedaço de terra que se vê quando se olha em frente,



desde que não estejamos por detrás do marco geodésico, obviamente.



Para o outro lado, a barragem de Sta. Luzia, mal se vê lá ao fundo. De lá, vê-se aqui o Adamastor imponente na paisagem, daqui vê-se barragem quase insignificante. Isto põe as coisas em contexto.



Foi para lá, para a barragem, que seguiu o ciclista extraordinário. É preciso meter na cabeça: embora pá que se faz tarde! Otherwise fica-se por ali sem se perceber como passa 1 hora. Enchidos os pulmões até aos ossos do ar fino que por ali sopra uma última vez e mil pedaladas depois, o ciclista extraordinário estava ainda muito longe da barragem, estava apenas a meio da descida, e tirou a única fotografia do regresso.


Não teria sido possível durante a subida. Arrancar na bike com a inclinação tão acentuada requer um esforço grande. Esta é a encosta do Adamastor, o caminho está à direita e é isto que se vê quando se olha em frente; a encosta íngreme, sobre o vale fundo do rio Ceira à esquerda e o planalto central da Estrela a espreitar ao centro no horizonte.

O ciclista extraordinário há-de voltar ao Adamastor antes que as folhas percam o viço e se outonem, que é como quem diz: c'est la vie



(Greg Lake)




domingo, 16 de maio de 2021

O que faz um zangão aos mil metros de altitude aos tropeções no solo?

 Abril 2021

Não sei.

Temos esta mania antropocêntrica de verter nas outras espécies animais que connosco co-habitam o planeta a nossa visão do Universo. Ora aqui está uma bela maneira de dizer que o que o zangão andava a fazer aos tropeções por entre as ervas pode não corresponder a nenhuma ideia pré-determinada. Andava ali, pronto. Por acaso. Mas temos esta mania. Andava à procura de comida? Estava doente? Era velho demais para voar? Estava mal disposto? Comeu alguma coisa que lhe fez mal? Precisava de esticar as pernas? Encontrava-se às escondidas com alguma abelha? Roçava o ventre nas ervas para se livrar de parasitas? Bebia água nas folhas húmidas? Andava simplesmente aos tropeções por entre as ervas.

O sítio onde o vi foi lá em cima, acima dos 1o00m, na encosta Norte do Trevim


sobre o vale das Beiras, até ao Caramulo. Aqui:

 (o planalto que sobressai na linha do horizonte um pouco à esquerda é a Serra do Buçaco)


E para Oeste até ao mar




Mas vamos ao videozinho (com som no máximo)