A memória das pedaladas. Foi esta a principal razão. O blog é, assim, uma espécie de dispositivo virtual de reforço sináptico.
terça-feira, 14 de setembro de 2021
The rest of the best
domingo, 8 de agosto de 2021
Na tempestade, sob o céu de trovoada pelas cumeadas do Açor
Junho 2021
Aaaahhh ... o céu de trovoada do Açor. Ver claramente vista a chuva que, ao longe, cai das nuvens ... e o cheiro da tempestade, a luz invulgar, o som grave dos trovões que se mete até aos ossos ...
Mas ... antes, entra (outra vez) o Zappa:
(Watermelon In Easter Hay do Acto III do Joe´s Garage)
Sente-se a força da tempestade no esterno e nas costelas, uma pressão nos pulmões que transforma o acto involuntário da respiração numa acção consciente. Olha-se o céu e respira-se fundo com imenso prazer. Nada é etéreo, é tudo físico e denso. Ao contrário do que diriam os irredutíveis Gauleses que resistem sempre ao invasor romano (apesar das baladas do bardo Assurancetourix lhes dar cabo do juízo), o céu não nos cai em cima da cabeça mas as paisagens que se desenham no céu pesam sobre todo o corpo.
A passagem. Ali, aos 700 m, na curva da barragem de Sta. Luzia desenhava-se a passagem entre um dia normal com céu nublado e uns trovões ao longe and the real thing, o pedalar serra acima para o seio da tempestade. E foi essa a história; serra acima para o céu da tempestade. O fascínio do abismo impôs-se.
Para Este as cortinas de água sobre o Cebola
Uma, duas, mil pedaladas serra cima. A mancha brilhante no fundo do vale do rio Ceira (daqui visto é apenas um fiozinho de água), reflectindo a luz do céu revolto, a barragem do Alto Ceira
Curiosamente, à medida que pedalava e me movia entre encostas, a luz variava entre os tons estranhos e quentes e o azul e cinzento frios.
Tantas vezes por ali perto passara e só agora dava conta dos menires à beira do caminho. Fiz ali o picnic (água da fonte e pão com marmelada) com vistas para o Cebola, olhando a chuva que, lá ao longe, sobre o pico do Cebola, caía das nuvens. É interessante olhar a chuva ao longe a cair das nuvens (já o disse mil vezes).
O regresso foi mais ou menos longo mas para o contar de modo breve: foram pedaladas ribombantes e relampejantes.
domingo, 1 de agosto de 2021
O vento que sopra do Norte empurra o nevoeiro do vale do Ceira pelas cumeadas do Açor
Julho 2021
Instruções:
1. OuvEr o videozinho com o som no máximo;
2. Tornar a ouvEr o videozinho mas, desta vez, por primeiro o Zappa a tocar Watermelon in Easter Hay (ali em baixo);
3. Repetir a gosto.
PS. Caso se sinta nas nuvens a percorrer as cumeadas do Açor está tudo bem. No problem, nada de preocupante.
(o vale do rio Ceira situa-se à esquerda, a Norte, 400 m mais abaixo, um dos vales que rasga o Açor)
quarta-feira, 14 de julho de 2021
Coração na serra, olhos no mar
Maio 2021
Pedalava pelo caminho um pouco abaixo da cumeada. Cem metros acima, a cumeada era varrida pelo vento. Por ali, aos cerca dos 800m, ia mais abrigado, havia árvores, vegetação (tinha-me cruzado com uma javali e dois filhotes não há muito), ribeiros ... e o olhar alcançava lonjuras. Já não ia para aqueles lados, para o lado Oeste da serra, há algum tempo. Se calhar porque é o lado onde a serra se acaba e o vale começa. Para o outro lado, para Este, é o oposto, a cordilheira eleva-se pelo Açor fora até aos 1400m de altitude e daí até ao maciço central da Estrela aos 2000 m. E isto da bike de montanha, a subidas são um atractor. É o olhar para cima que impele. Se distraído, vou seguramente para cima.
Durante a subida, em algumas partes, mas acima dos 700m, os montes estavam cobertos de uma flor surpreendente que se elevava sobre a urze rasteira. Curioso aquilo. Ao longe pareciam flocos de neve; ao perto isto:
E. pelo lado de cima, assim:
Ali, um local ermo, sobranceiro ao vale imenso que do lado direito se estende até à serra do Caramulo e do lado esquerdo até ao mar. Em dias limpos vê-se claramente visto o mar e a Figueira-da-foz.
Coração na serra, olhos no mar
A tábua gravada a cinzel (ou à navalha), mostrando um mapa com locais icónicos da região que dali se avista: o mosteiro de Semide (berço da chanfana!), o Sr. da Serra, a Torre da Universidade de Coimbra, o vale do Mondego e a serra da Boa Viagem ... Em cima, à esquerda, a identificação da instalação: Vila Nova, o miradouro do concelho. Vila Nova é uma povoação ali perto. E ali, naquele local belo, remoto, de difícil acesso Vila Nova decidiu instalar o mapa da região gravado numa tábua de madeira e deixar bem vincado na memória de quem, por mero acaso, por ali caminhar, correr ou andar de bike, como se a memória fosse também esculpida à navalha que ali, naquele sítio: coração na serra, olhos no mar.
Que bela ideia.
Olhos no mar:domingo, 27 de junho de 2021
Neblinas Júnicas
Junho 2021
Dobrado o Solstício, a tardes vinham já quentes e as manhã mornas. À serra, imensamente verde, parecem ter voltado as borboletas e as abelhas, os pássaros e as lagartixas como já não via há uns anos.
De uma dia para o outro, de Sábado para Domingo, a temperatura caiu dos 20 e tal para os 11 graus C e, sem grande surpresa, das cumeadas até à floresta a meia encosta, a serra cobriu-se de neblina. Com o dia a temperatura aumentaria e, pela tarde, as brumas levantariam. Mas, pela manhã, a serra estava envolta em neblina. Neblina densa. Neblinas de Verão. A neblina que enche a paisagem de silêncio e mistério. Sobretudo estando lá, quero dizer, no meio da neblina, no meio da serra.
Na EN236 a visibilidade aos mil metros era cerca de meia dúzia de palmos à frente da roda da frente da bike. A caruma fininha dos abetos marcava a berma num traço paralelo ao verde dos fetos, com pinceladas roxas aqui e ali das dedaleiras.
quinta-feira, 17 de junho de 2021
De volta ao Adamastor do Açor
Maio 2021
Tendo iniciado mais uma volta ao Sol - e já lá vão umas dúzias - o ciclista extraordinário foi dobrar o cabo das tormentas do Açor. Previa-se céu limpo e vento fraco. O dia amanheceu com céu azul e um ventinho quente. Depois de uma caneca de café e umas fatias de pão com queijo e doce de abóbora, o ciclista fez-se às ondas quer dizer, ao caminho. Os cantis seriam cheios na fonte junto à barragem. O espelho de água que se estende até ao infinito (mais ou menos, pelo menos até ao planalto da Estrela) é uma surpresa antecipada quando se chega pelo lado dos penedos da barragem, pelo lado da aldeia do Vale Grande.
Logo na curva dos penedos, a barragem! Ao centro na linha do horizonte o maciço central da Estrela e, à esquerda, formando um cone perfeito, o Adamastor do Açor; o picoto da Cebola (local de onde se avista cerca de um terço do território continental).
domingo, 16 de maio de 2021
O que faz um zangão aos mil metros de altitude aos tropeções no solo?
Abril 2021
Não sei.
Temos esta mania antropocêntrica de verter nas outras espécies animais que connosco co-habitam o planeta a nossa visão do Universo. Ora aqui está uma bela maneira de dizer que o que o zangão andava a fazer aos tropeções por entre as ervas pode não corresponder a nenhuma ideia pré-determinada. Andava ali, pronto. Por acaso. Mas temos esta mania. Andava à procura de comida? Estava doente? Era velho demais para voar? Estava mal disposto? Comeu alguma coisa que lhe fez mal? Precisava de esticar as pernas? Encontrava-se às escondidas com alguma abelha? Roçava o ventre nas ervas para se livrar de parasitas? Bebia água nas folhas húmidas? Andava simplesmente aos tropeções por entre as ervas.
O sítio onde o vi foi lá em cima, acima dos 1o00m, na encosta Norte do Trevim
sobre o vale das Beiras, até ao Caramulo. Aqui:
E para Oeste até ao mar
Mas vamos ao videozinho (com som no máximo)
































