O vento das serranias, o vento que limpa a cabeça e leva as certezas que temos - uns mais que outros - tendência a acumular na mente para longe ... the answer is blowing in the wind. Yes, how many years can a mountain exist before it's washed to the sea? Um milhão? Um googolplex? The answer my friend is blowing in the wind.
As cumeadas varridas pela ventania. Esperava o quê? Depois de pedalar serra acima esperava uma aragem suave numa churrasqueira à beira-mar, espalhando o cheiro do frango assado ou das sardinhas queimadas no pico do Verão por sobre as pelezinhas queimadas dos passeantes na marginal?. As ervas e arbustos que por ali nascem, crescem e morrem numa dança maluca permanente. É o vento que as semeia. Uma semente embalada pelo vento que cai à terra, germina, origina a planta que cresce, produz sementes que, levadas pelo vento, caiem à terra, germinam, originam a planta ... porquê? The answer is blowing in the wind, my friend, the wind.
Perguntou, um dia, um professor - depois de ter estado a arengar sobre o absurdo da finalidade biológica -, curiosamente um professor de Hematologia: porque voam as aves? Na altura, o ciclista extraordinário percebeu bem a coisa e respondeu: porque não conseguem andar de bicicleta. Silêncio. Os colegas do ciclista extraordinário fitaram-no perplexos com ar grave e sério sem terem percebido a ponta de um corno. Para além do do ciclista extraordinário, o outro sorriso na sala era do professor de Hematologia. Exactamente, concluiu o professor.
Nas cumeadas o vento não é um intruso. E que raio é que um ciclista anda por ali a fazer? Sopra o vento, sopra o vento. Bbuuuuuuuuu. Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido (F: Pessoa)
Por ali abaixo, pelo trilho que parecia desenhar-se à medida que me metia pelos fetos adentro. Na memória acendeu-se uma recordação de há mil anos. Ia por um caminho estreito e parcialmente tapado por fetos e que serpenteava por entre árvores num pinhal de chão atapetado por caruma e pinheiros grandes. Ia de bike, uma pasteleira que tinha arranjado e que cumpria todos os requisitos para pasteleira, nomeadamente suporte de ferro atrás, guarda-lamas de metal, selim em cabedal e com molas cromadas, campainha, farolim a dínamo ... e que pesava uns 25 Kg, mas dizia, por ali fora a pedalar, o palmo de terra que fazia o caminho por entre os fetos a desenhar-se à medida que pedalava quando, numa curva apertada, surge em frente uma "mina de água" e que, naqueles tempos em que o meu cérebro não tinha feedbacks inibitórios, me fez pular da bike, deixando-a cair com estrondo lá em baixo na mina, ficando eu agarrado cá em cima a umas giestas.
Desta vez, com um cérebro mais calibrado, por assim dizer, ia antecipando possíveis buracos e inesperados perigos por ali abaixo.
Parei numa curva, atraído por uma ribeira que cantarolava por ali. Sentei-me numa pedra atapetada de musgo verde para uma bela de uma laranja que levava n bolso da camisola. Verde. Tudo à volta era verde. Percebemos a cor devido aos comprimentos de onda da luz que são reflectidos para os olhos.
A clorofila devolve-nos o verde (por isso o vemos), absorvendo as outras cores (isto é, os outros comprimentos de onda) nas extremidades do espectro da luz visível, os azuis e vermelhos. Uma molécula extraordinária, a clorofila, uma antena que colhe a energia da luz do Sol e a cede (na fotossíntese) para produzir glicose e oxigénio a partir de dióxido de carbono (CO2) e água. E a glicose e o oxigénio fazem-nos bom proveito, como é bom de ver. O pãozinho é feito de quê? Ah, pois, então mas se as plantas utilizam CO2 (gás com efeito de estufa) quer dizer que o aumento do CO2 na atmosfera pode levar a uma produção agrícola mais eficaz ... mas e o aquecimento global? ... pois, mas já hoje se usa o aumento da concentração de CO2 em estufas para fazer crescer produtos agrícolas ... sim, mas não era esse o efeito de estufa em que estava a pensar, era mais o planeta, o degelo ... pois, mas mais produtos menos fome ... bom, fica para outra vez, é que desbobinar aqui ideias contra-corrente dilui o verde deste post.
(parecia um colibri, a flor)
Os fotopigmentos na nossa retina (localizados nos fotorecptores designados por cones) têm sensibilidade distinta aos diversos comprimentos de onda da luz; uns absorvem no azul, outros no verde e outros vermelho (ou lá muito perto, nos 550 e picos nm). Somos "tricromáticos" (a maioria de nós), já os cães são dicromáticos; têm apenas dois tipos de cones, uns sensíveis ao azul e outros ao amarelo. enquanto que nós vemos misturas de azul, verde e vermelho eles vêm misturas de azul e amarelo. Esta paisagem para o cão não é explosivamente verde mas, provavelmente, uns desmaios de amarelo acinzentado. O cérebro do cão pinta a natureza com uma paleta diferente da nossa. Seguramente tão complexa e interessante para eles como para nós.
Disparei a toda a volta, quase sem sair do local escolhido para roer a laranja. Ah, e o verde era húmido e a cor embalava no som do riacho que por ali corria.
Tal como o Zappa que dizia, irónico, chegando mesmo a dar o título a um álbum com os Mothers of invention, "We're only in it for the money", (esta vírgula é importante porque é um grande fosso e não apenas uma pausa) também eu ando nisto apenas pelas fotografias. E estas são de uma travessia que já várias vezes fiz, pedalando parte da cadeia montanhosa que se atravessa no centro de Portugal, entre os vales dos rios Alva e Zêzere, o primeiro a Norte e o segundo a Sul, para não falar do Ceira que corre pelo meio da cordilheira, como que uma espinha dorsal liquida, fluída e variável (como quase tudo na vida). Logo (logo!), sem mais delongas let´s look at the photos. Apenas uma pequena introdução para salientar a instabilidade do tempo que acompanhou as pedaladas, desde o nevoeiro cerrado à partida, que nada deixava adivinhar quanto ao futuro, se chuva, se Sol, se nem por isso, ao Sol aberto no céu azul, quente, muito quente quando estava lá no alto e o Picoto da Cebola, o Adamastor da serra do Açor, ia ficando closer and closer, às nuvens acasteladas vindas de Sul, imprevisíveis com mil tons de cinzento e cortadas por raios - eu bem os via ao longe, sem saber se vinham se se iam - à passagem pela barragem de Sta. Luzia. O resto da história conta-se em duas penadas e mil pedaladas: que prazer a travessia durante horas a solo pelas cumeadas com guinadas súbitas no tempo.
À saída de casa, a expectativa e o fresquinho da manhã, das sete da matina, ia bem com os aromas húmidos da erva e da terra.
Os horizontes só se revelaram pedaladas depois, já sobre o vale de Góis, pela mítica EN2 acima. À altitude que já levava, via claramente visto o nevoeiro a desenhar as voltas do rio Ceira vales afora. Já não seria primeira vez que pedalaria ao longo do rio, caso tivesse optado por continuar no vale. Mas eu queria era horizontes, queria o céu por cima da cabeça e o vento na face.
E, bem o sabia, mais pedalada menos pedalada, ele iria surgir. Ao longe. Ia a passar junto a uma horta com couves quando, na curva do caminho, ele surgiu na linha do horizonte
Ali, ao centro. O cone quase perfeito. O Adamastor do Açor.
Closer
Closer. Faltava-me ainda pedalar todo o azul por ali fora.
O dia abria, a solidão acentuava-se (pois, por ali, além de mim, só alguns outros ou de quatro patas ou de duas asas), os caminhos que me esperavam eram agora nítidos nas encostas à minha frente e o Adamastor marcava a direcção. Gosto destas cumeadas varridas pelo vento e pela luz.
Sob a nuvem, à esquerda do Adamastor, o maciço central da serra da Estrela. Teria que me manter na cumeada, evitando subir e descer os montes à frente, rumo ao Picoto da Cebola, o Adamastor.
Para a frente e à volta, todos estes montes estavam em chamas há 2 anos atrás. Os grandes incêndios que devastaram estas serranias deixaram estes montes negros e quase estéreis. Hoje já mais verdes que castanhos mas ainda com as marcas da devastação; urze mas poucas árvores, insectos mas raras aves ou mamíferos.
Mil pedaladas depois, já com a barragem de Sta.Luzia à vista
encostei a bike a uma árvore para o banquete (pão com marmelada e água da fonte) e, quase os pisava, olhei para o lado e ... morangos silvestres. Raramente os encontro. E tantos, quase enchi o bidão. Pequenos e deliciosos.
Ir lá abaixo à barragem e voltar levar-me-ia mais de uma hora mas, naquele engano d'alma ledo e cego que, como é bem sabido, a fortuna não deixa durar muito, pensei: que se lixe (to say the least). O apelo era tremendo. Fui.
Um fenómeno curioso tomou conta da paisagem; as nuvens que acastelavam muito rapidamente, o vento ora quente ora frio vindo de todos os lados, here, there and everywhere,
a luz heterogénea com tons quentes no céu e frios rente ao chão e à água ... Alguma coisa vinha aí. Pus-me a caminho.
Quando regressei às cumeadas, após a subida feita em força, pedalada a pedalada, adivinhando o que aí vinha, o céu transformou-se.
Depois deste céu, a história conta-se em pedras de granizo arremessadas das nuvens contra os óculos, o capacete, braços e pernas (para referir apenas os locais de embate mais óbvios), em água a entrar por todos os poros, um vento maluco às voltas que impedia as pedaladas, um barulho dos infernos vindo de todo o lado, o céu em cima da cabeça, como diria Assurancetourix, Abraracourcix, Bonemine & Co. Mas foi apenas um ciclista na tempestade. Uma tempestade do catano, com risco de acidente, de hipotermia, mas nada mais do que isso. Não foi um ciclista ligado a um ventilador numa unidade de cuidados intensivos, nem com um joelho na jugular, sequer um ciclista preocupado em saber se comeria no dia seguinte ou se teria água na torneira para tomar banho à chegada.
mas, antes, uns aromas de Maio, de hoje (ontem) dia 16; aromas úrzicos temperados com azul do horizonte
Mas as pedaladas de Abril sob neblina. Pedala-se na estrada já mil vezes percorrida como se numa road to nowhere se viajasse.
Chegada à foresta aos mil metros de altitude. Fim da primeira parte da subida. Respirar fundo. Silêncio. A neblina ora em golfadas puxada pelo vento ora assapada como uma manta pesada sobre o chão.
Olhando à volta, a surpreendente beleza entranha-se nos ossos.
Tal como Llueve sobre Santiago, a homenagem de Piazzola a Allende. Como se estes sons do bandoneon e do violino nascessem por entre a neblina. Já estive em Santiago, há uns anos, mas não pedalei por lá. Tinha-o feito mais a Sul, na patagónia chilena. Foi, aliás, ali que o blog começou, ao Km zero. Em Santiago caminhei por vielas, afastado das avenidas e dos locais a que, supostamente, os turistas deveriam ir. "És maluco" disseram-me quando voltei ao hotel. "Não, vocês é que são pois perderam a oportunidade de ver a cidade".
Horas de descer e vem à memória once there was a way to get back home. E o caminho sob a neblina e com uma visibilidade de uns 30 m vai surgindo à medida que se percorre.
Já perto do vale, na aldeia do Candal, vários gatos espreguiçavam-se por ali numa eira em pedras lisas de xisto. Com um deles cruzei um olhar.
Mensagem: não consigo responder aos comentários que têm sido feitos nas últimas semanas. Muito obrigado pelos comentários; lamento não conseguir responder. Espero resolver isto rapidamente ... já não é a primeira vez que tenho este problema com a porra do Blogger.
2020
Still April, after all these years ...
Os caminhos são os caminhos. Pedalo pelos caminhos que me levam serra acima, pedalada a pedalada e, quando levanto a cabeça e olho para cima, para os cumes dos montes, vislumbro o recorte contra o céu, imagino o sítio alto, talvez o vento que se vai fazer sentir, o céu aberto, mas não antecipo pedaladas por caminhos lá no alto ... quando chego ao cimo, surpreendo-me sempre com os caminhos que não ideei - são novos caminhos - e os caminhos lá em baixo deixaram de o ser, são paisagem. C'est la vie.
Às vezes, lá no alto, os caminhos são apenas pequenas veredas por entre arbustos. Foi o caso deste dia de Abril. O aroma da urze florida misturado com o dos cedros, Sol quente a temperar o friozinho do vento, horizonte limpo pelas chuvas recentes, só ...
Nem sempre lá em baixo, ao levantar a cabeça, se vê o cimo da serra.
Muitas vezes vou a caminho do cimo da serra sem me lembrar que vou a caminho do cimo da serra. É que há coisas que distraem o pensamento:
Lá no alto, para Este, a cadeia montanhosa descobria-se até ao Picoto da Cebola, o cone perfeito na linha do horizonte, na serra do Açor. Já vários caminhos, pedalada a pedalada, me levaram lá ao cimo. A última foi, talvez, há um ano atrás.
Bem visível aqui (o Picoto da Cebola, o Adamastor do Açor).
Há uns poucos anos, talvez em 2017, fiz a travessia desde lá longe do Cebola até aqui. Atravessei as serranias que agora se abrem à minha frente. Lembro-me que era Agosto e que cheguei aqui, ao cimo da serra da Lousã, já de noite e que a descida foi feita na escuridão. Tirei fotografias que pensei aqui postar mas o tempo escapa por entre os dedos.
Time it was ... Simon and Garfunkel. Ando com estes acordes de guitarra na cabeça há mil anos. Ouvi-os a primeira vez num filme com a Jane Fonda.