domingo, 8 de novembro de 2020

Photoshoping

Novembro 2020

O photoshop nada acrescenta nem tira à realidade. Muito menos a uma fotografia que nada acrescenta nem tira à realidade. Olha-se o chão coberto de folhas e, dependendo do ângulo pelo qual a luz do Sol incide nos milhares de folhas, da sombra das árvores, da nuvem que passa soprada pelo vento ... a cor muda, o brilho acentua-se para logo se revelar o vermelho ou o amarelo ou o verde .. e o cérebro lá vai formando os padrões, normalizando e habituando-nos a ver o que às tantas não está lá, à nossa a frente, construindo a nossa realidade. E, por isso, não sei se a realidade construída pelo meu cérebro se assemelha à do meu vizinho.

Em suma, quanto ao Photoshop nada contra nem a favor. Tudo é a realidade.


(the bike and the yellow leaves, I mean the blue leav..., sorry ... whatever color)


(The path)


(água fresquinha a correr e uns fetos muito bonitos)


(não se ouve mas havia pássaros por ali a esvoaçar)


(drops kept falling on my head caídas das árvores)


(what is the warmest color?)



(No comments) 

(The gates to nowhere)




domingo, 1 de novembro de 2020

Folhas mortas, caindo com estrondo

 1 Novembro 2020

O ciclista extraordinário foi à serra ver a queda das folhas das árvores. Escolheu um bosque bonito, com carvalhos e castanheiros, uns cedros por aqui e por ali, em altitude porque o ar é mais fresco (por volta dos 900 m) e umas pedaladas depois lá estava. Chegou, passou por entre dois cedros muito grandes, como que as portas do bosque e, logo depois, encostou a bike e andou por ali, pelo chão coberto de folhas caídas e mortas.


Uma neblina fina tinha-se infiltrado por entre as árvores e o silêncio que já era fundo ficou ainda mais fundo. Era tal que o ciclista extraordinário ouvia claramente as folhas a cair, batendo noutras e nos ramos das árvores. Por vezes até se assustava, tão inverosímil lhe parecia o barulho das folhas a cair.




Tal como algumas células no nosso organismo, as folhas das árvores morrem silenciosamente. Um suicídio necessário à sobrevivência do organismo, da árvore. Uma morte regulada, programada, individual. Nas árvores não sei mas, no nosso caso, a ideia é que a vida requer a morte; uma célula danificada que pode dividir-se descontroladamente, originando um cancro, terá que morrer a bem do organismo. A morte da célula é uma descosntrução metódica, programada que requer energia. O primeiro tipo de morte programada descoberto há uns vinte e tal anos chama-se "apoptose". E, em Grego antigo (no qual, obviamente o ciclista extraordinário é especialista) "apoptose" significa "queda das folhas no Outono".

E o ciclista extraordinário fez uns videozinhos das folhas a cair. 






Depois - o ciclista extraordinário não se lembra muito bem quanto tempo por ai andou - chegou a hora de ir embora. Como quase sempre.

Where´s my bike. Ah, está ali.

E, mais rápido que a brisa que não soprava, o ciclista extraordinário lançou-se por ali abaixo a assobiar o solo de guitarra do Eric Clapton nas Autumn leaves.








sábado, 24 de outubro de 2020

A raposa

 Outubro 2020

Tinha subido a serra até ao planalto, até cerca de 1000 m de altitude. Dez graus à saída de casa, dia claro com luz filtrada por um céu baixo, a posição do Sol marcada por um clarão branco no céu, aragem suave, neblina densa metida nos vales. A serra tranquila. Eu, nem por isso, pedalei furiosamente serra acima quase sem dar conta, a cabeça à roda à procura de soluções para tarefas que se avizinham, a mind wandering tão necessária. Numa paragem imposta pela beleza de uns carvalhos e castanheiros que lançavam os ramos ainda com umas folhas quase mortas sobre um riacho recém formado pelas chuvas recentes, apareceram dois ciclistas.


Regressei à terra e fiz o resto da subida à conversa. Eles desceram para o vale a Sul e eu continuei um pouco mais. O nevoeiro estava cerrar, a serra a transformar-se e eu gosto disso.



De tão denso o nevoeiro molhava os lábios. Andei por ali, na mata de grandes cedros parecia que anoitecia, os troncos altos e escuros contra a luz branca e difusa ... que beleza.



Às tantas ... um tronco, uma pedra, o super-homem? Não! Uma raposa. Parei. Perscrutei as redondezas e dei com o olhar dela em mim. Observando-me.



(ao centro, junto ao tronco morto)









Um encontro imediato do terceiro grau. Cara a cara. Cérebro a cérebro. Ela observava-me. Puxei do telemóvel devagar e disparei umas fotos. Lembrei-me de fazer um vídeo.

Afastava-se, olhando para trás. Então pá, vens ou não? Fui. Liguei o vídeo do telemóvel e saltámos troncos, contornámos arbustos, subimos a mata, ela muito ágil, eu de sapatinhos com sola de carbono e com cleats de metal, um olho no chão, outro no ecrã, quase aos trambolhões por ali fora, seguindo-a ... um longo vídeo. De súbito, a merda do telemóvel desligou-se. Fuck. Ela ficou por ali, como que perplexa. Liga lá essa merda outra vez. Liguei e fiz o vídeo em baixo. Uns pouco segundos para nos despedir-mos. 


Tempo de voltar. Isto é, tempo de descer. Where´s the bike? Ah, está ali.




segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Lado B do post anterior

ou seja, por outras palavras, rain drops keep falling on my head.

Miss Warwick? Please, the stage is yours:


E agora ficava aqui a ouvir a belíssima Dionne mas fica para outra vez. A voz luminosa da Miss Dionne Warwick não assenta bem num céu branco e neblínico de onde caem os pingos da chuva ou sequer da floresta húmida e outonal. Não muito mas já um pouco Outonal. Isto é, os verdes ainda predominantes mas os laranjas, amarelos e castanhos a ganhar terreno.

Portanto, a chuva keep falling, transformando a serra, acentuando aromas, arrefecendo o ar, trazendo à terra o líquido mais estranho neste planeta: a água.

Depois da última fotografia do post anterior, ainda com o sabor da laranja nos lábios, subi à Cerdeira. Tinha lá estado uma semana antes e ouvira claramente ouvido um macho que na ribeira, ao fundo da aldeia, ali bramava desvairadamente. Debalde, era já muito tarde. A brama parece ter horas. Um pouco depois do por-do-Sol e acabe-se-lhes o pio. Calam-se. É a luz a controlar os relógios moleculares dos veados.



Um pouco antes tinha subido mais um pouco. Aos cerca dos 800m. Pela milésima vez apetecera-me percorrer a floresta do Terreiro das Bruxas. 










Um pouco mais - há sempre a vontade de ir um pouco mais além - e pedalei ainda até aos 1000 m.  A esta altitude a neblina começava a instalar-se para a noite. Fui com atenção, perscrutando por entre as árvores na expectativa de um encontro imediato do terceiro grau com os nossos primos de 4 patas e belos par de cornos. Um movimento, um ruído de galhos quebrados , um vulto rápido que passa ... e eles passam rápidos e fugidios como já tantas vezes aconteceu.
Lá ao fundo, junto aos cedros. Sim? Não, é um tronco caído.


Houston, do you read me Houston? Preparar para a descida. Por aqui está um friozinho que requer o uso do equipamento de reserva. Corta-vento, touca, lenço ao pescoço ... e um cubo de marmelada para pôr a insulina a correr nas veias.


E daqui segui para a Cerdeira, lá em baixo.

E, enquanto estava em comunicação com Houston, percebi que um velho amigo se aproximara. Levantei os olhos devagar. Lá estava, sobre uma pedra coberta de caruma, olhando-me.






quarta-feira, 30 de setembro de 2020

As primeiras chuvas e a brama

 Setembro 2020

Setembro, mais para finais de Setembro, é a altura da brama dos veados. Ao amanhecer e ao anoitecer os veados bramam, chamando pela fêmeas. Lutam para a constituição do harém. A luz do Sol governa os ciclos circadianos e os relógios moleculares no nosso organismo. O deles também e é pela manhã e ao fim do dia que os sons cavos ecoam pelos desfiladeiros e vales fechados da serra. As manhãs neblínicas e os anoiteceres dourados têm um efeito potenciador na brama. Ouvir no silêncio imposto pela neblina o eco da brama é uma experiência que arrepia a pele.

Foi no dia em que a chuva chegou à serra, depois da temporada quente e seca, que os ouvi. A expectativa dos aromas da terra e da urze molhadas, do brilho húmido das folhas das árvores ... impelem-me a pedalar serra acima. Era já o fim do dia e então, sem esperar, o eco da brama encheu o vale da ribeira de S. João.

Parei e comi a laranja que levava no bolso. Olhei à volta e disparei o telemóvel ao acaso:

Leitos a humedecer ainda à espera de das tempestades que hão-de fazer correr a água em fúria 





Fetos a morrer lentamente, colorindo o chão







O musgo que cobre as pedras


e as árvores a ficar viçoso, mais fosforescente, ao receber as pingas (da chuva).





Já agora, pode ser que isto seja útil:

Quem sobe a EN236 a partir da Lousã (direcção Castanheira de Pêra), por volta do km 8,5, logo após o cruzamento para a aldeia da Cerdeira, isto é, depois do monólito,


faz uma curva fechada à direita que leva à encosta Sul do vale da ribeira de S. João. A estrada serpenteia serra acima cerca de 1 km. Após a curva há outra "instalação" à beira da estrada:



de um tronco morto de uma árvore, com jeitinho nasceu o veado. A placa no tronco indica o Candal, 2 ou 3 km mais acima.



Parando o carro por ali, umas curvas mais acima, ao fim do dia, é muito provável ouvir a brama vinda da encosta oposta (sei que por ali há um harém). O silêncio cortado de tempos a tempos pelo eco do chamamento dos veados. Fim de Setembro e metade de Outubro é a altura da brama.



sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Açor: a linha do horizonte

Agosto 2020

O estradão em primeiro plano. À medida que se ganha altitude o ar é mais fino e os aromas mais limpos. Por isso, a altitude conta. O estradão aos 1000 m de altitude. Na linha do horizonte o maciço central da Estrela aos 2000 m. Entre ambos fiz as viagens vertical e horizontal. Ida e volta. Dia quente mas, àquela altitude, soprado por um vento que fazia estremecer o corpo suado.



Pelo meio. Pelo meio vertical e horizontal, o Adamastor do Açor: o cone quase perfeito do Picoto da Cebola (ao centro, num plano à frente da Estrela).  Do picoto da Cebola vêem-se os falcões e os açores. Estas magníficas aves planam, deixam-se ir no vento para, de súbito, tomarem um rumo que definem independentemente do vento. Um coelho, um rato e lá vão eles em mergulho. Nas pedaladas que me levam ao picoto os falcões e os açores planam a uma altitude em que os vejo pelo dorso ... vejo-os por cima, olhando para baixo (e não para cima, se necessário é dizê-lo). Plano no Açor sobre os açores.


Here we go a navegar aos 1000m de altitude. Passei grande parte da minha vida umas centenas de metros acima do nível médio do mar. Devo ter o 2,3-difosfoglicerato (2,3-DPG) ligeiramente elevado. E, à medida que pedalo, o 2,3-DPG mete-se entre as cadeias da hemoglobina nos meus eritrócitos, permitindo uma oxigenação mais fácil das células musculares das minhas pernas. Depois, tal como o sonho e a bola colorida nas mãos da criança e por aí fora, o cérebro comanda a vida e pam! lá vai a acetilcolina, pam! lá vai o sódio e o potássio, pam! lá vai o cálcio, pam! lá vou eu sem pensar nisto. Pedalada após pedalada. Pedala-se como se respira. Há um momento em que vem o cansaço. Mas o que é o cansaço? Acho que ninguém sabe. Pelo menos de ponto de vista bioquímico. Ah e tal o ácido láctico acumula-se nos músculos ... sabe-se hoje que esta não é a razão biológica. O cansaço exige um pouco mais de esforço, apenas mais um pouco até que se atinge um estado em que se pedala com a mesma naturalidade com que se respira. É um estado interessante. 

A linha do horizonte de há horas atrás, no estradão das eólicas aos 1000 m, deu lugar à linha do horizonte vista do picoto da Cebola aos 1400m de altitude. A Estrela imponente logo ali, um horizonte próximo.




Para o outro lado, para Oeste, a linha do horizonte é traçada pelo recorte do Trevim, na serra da Lousã. E daqui vejo as cumeadas navegadas para aqui chegar, quero dizer percorridas, bem entendido.



Às tantas, atravessa-se-me na mente a obrigação de uns carapaus que terei que grelhar lá mais para a noite. Hei-de fazê-los como deve ser. Grelhar carapaus é uma arte só acessível a verdadeiros "experts". Tirá-los inteiros, a pele inteira e crocante, suculentos por dentro, de um azul alourado e brilhante (isto é, não deixar secar e queimar ...) ... 


A lembrança dos carapaus faz-me tomar o rumo de casa. Horas de pedaladas pela frente.
Já metido nos vales olho, de novo, o horizonte a Oeste. O Sol baixo, a luz difractada e heis que, num passe de magia, a serra da Lousã se tinge de azul. Por breves instantes. Mudo de sítio, o Sol baixa mais um pouco, algumas nuvens passam por ali e a montanha azul transforma-se novamente. 


Aqui, onde a roda da frente da minha bike pisa ao chão, a serra é amarela e verde. Amarelo seco e verde de uns heróicos arbustos que teimam em nascer e crescer nestas encostas devastadas pelo fogo há 2 anos. Também por ali os esqueletos de algumas árvores queimadas, negras, teimando também em manter-se de pé.


As sombras nos vales, o vento mais fresco e a luz pálida formam um padrão no meu cérebro que me diz: está a anoitecer.


O vale do rio Ceira e os penedos de Fajão no horizonte mais próximo. Uma visão extraordinária.



Depois vem a noite a um friozinho que se instala na "espinha" e nos faz apressar. A contemplação não tem horas, a chegada a casa tem. Não ser apanhado pela noite nas serranias, sem luz, é uma ideia que começa a martelar na cabeça. Mas o prazer de parar e ficar por ali  olhar o pôr do Sol faz-me faz-me parar e ficar por ali a olhar o pôr do Sol.






terça-feira, 11 de agosto de 2020

Vento

Junho 2020

O vento das serranias, o vento que limpa a cabeça e leva as certezas que temos - uns mais que outros - tendência a acumular na mente para longe ... the answer is blowing in the wind. Yes, how many years can a mountain exist before it's washed to the sea? Um milhão? Um googolplex? The answer my friend is blowing in the wind.

As cumeadas varridas pela ventania. Esperava o quê? Depois de pedalar serra acima esperava uma aragem suave numa churrasqueira à beira-mar, espalhando o cheiro do frango assado ou das sardinhas queimadas no pico do Verão por sobre as pelezinhas queimadas dos passeantes na marginal?. As ervas e arbustos que por ali nascem, crescem e morrem numa dança maluca permanente. É o vento que as semeia. Uma semente embalada pelo vento que cai à terra, germina, origina a planta que  cresce, produz sementes que, levadas pelo vento, caiem à terra, germinam, originam a planta ... porquê? The answer is blowing in the wind, my friend, the wind.
Perguntou, um dia, um professor - depois de ter estado a arengar sobre o absurdo da finalidade biológica -, curiosamente um professor de Hematologia: porque voam as aves? Na altura, o ciclista extraordinário percebeu bem a coisa e respondeu: porque não conseguem andar de bicicleta. Silêncio. Os colegas do ciclista extraordinário fitaram-no perplexos com ar grave e sério sem terem percebido a ponta de um corno. Para além do do ciclista extraordinário, o outro sorriso na sala era do professor de Hematologia. Exactamente, concluiu o professor.

Nas cumeadas o vento não é um intruso. E que raio é que um ciclista anda por ali a fazer? Sopra o vento, sopra o vento. Bbuuuuuuuuu. Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido (F: Pessoa)